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Dicas

Madeira com tratamento caseiro? Nem pensar

Em pleno século XXI, alguns especialistas ainda prescrevem fórmulas para tratamento caseiro de madeiras, especialmente para atender s necessidades do homem do campo. A princípio, nada contra. Até porque, conceitualmente, a iniciativa tem sua lógica. Porém, na prática, a teoria muda de figura.

Sob as condições supercontroladas de um laboratório, que funciona sob responsabilidade de profissionais altamente qualificados, como ocorre nas universidades e institutos de pesquisa, não há dúvida quanto eficácia dos chamados “tratamentos caseiros” para preservação de madeiras. O problema começa quando esse tipo de conhecimento é transferido ao produtor rural, levando em conta apenas aspectos econômicos e logísticos imediatos. O preço da econômica pode ser ambientalmente muito alto.

Basicamente, são veiculadas duas técnicas para tratamento caseiro. Uma delas é o chamado “banho quente/frio”. Entram em cena fatores técnicos como teor de umidade, tempo de contato com o preservativo durante o processo, tempo de imersão nos banhos quente e frio, níveis de penetração e retenção do agente. Outra técnica é a chamada “substituição de seiva”, ou transpiração radial. Nela, o ritual técnico é ainda mais complicado, exige maior rigor e atenção. Submete-se a peça de madeira imersão parcial, logo após a colheita, completamente descascada e com remoção completa dos remanescentes do interior da casca, representada pelo “câmbio”, para facilitar a transpiração radial ou perda de umidade pelos raios da tora.

Em qualquer dos dois casos, mas especialmente no da transpiração radial, tem-se, além da preparação da madeira, a preparação do preservativo que envolve manipulação de produtos químicos de toxicidade variável. Portanto, o banho quente/frio e a substituição de seiva têm em comum a questão crucial da segurança operacional e ambiental.

Teoria X Prática

Em laboratório, pode-se manter as variáveis do tratamento sob controle e em níveis ótimos. Aspectos de segurança também estão implícitos, fazem parte da rotina nesses locais. Mas no campo, em escala real, tudo fica mais difícil diante de sérios riscos de acidentes operacionais e ambientais. Para complicar ainda mais esta situação, em geral o produtor rural não está minimamente preparado para enfrentá-la.

Todos os chamados “procedimentos caseiros” para tratamento de madeira não permitem controle adequado dos processos de formulação do preservativo nas concentrações ideais, reposição do produto nos tambores, absorção, penetração e retenção. Estes são alguns dos parâmetros fundamentais para o bom desempenho das peças tratadas. Também ficam lacunas importantes quanto aos aspectos legais e de segurança operacional / ambiental, que incluem registro junto ao Ibama, atendimento normas para descarte de embalagens e disposição de resíduos, equipamentos de tratamento e de proteção individual ( EPIs) , entre outros. Fica evidente a distância que existe entre a teoria e a prática. Vale insistir na questão dos perigos relacionados segurança quando manipulação de ingredientes ativos desde a sua aquisição até a preparação de soluções preservativas. Há que se estar preparado para estes procedimentos.

O tratamento industrial da madeira em autoclave conta com a necessária retaguarda técnica. Nele, o preparo de soluções preservativas é feito em sistema fechado, sem riscos de contato com operadores ou contaminação ambiental. Quando retirada da autoclave, a madeira tratada permanece em “descanso” por tempo controlado, para que ocorram as reações de fixação do preservativo com os componentes celulósicos da madeira. No sistema vácuo/pressão em uma autoclave, todos os parâmetros são controlados: vácuo inicial, pressão, absorção, tempo, entre outros. Por isso a Associação Brasileira dos Preservadores de Madeira estimula e recomenda sempre o uso de madeira tratada em autoclave, de acordo com a normatização existente no País. O Brasil dispõe de uma grande rede de usinas de tratamento de madeira associadas, que podem atender as necessidades do mercado com qualidade e a preços competitivos. Para identificar as usinas instaladas em cada região do território nacional, basta consultar o site da Associação no endereço www.abpm.com.br

Flavio Carlos Geraldo

Vice-Presidente da ABPM – Associação Brasileira de Preservadores de Madeira

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